A inteligência artificial (IA) fascina a humanidade, seja pela capacidade de emular o raciocínio humano, seja pela rapidez em simular perguntas e respostas. Contudo, os dilemas éticos que ela suscita também são notáveis.
Um dos marcos culturais mais emblemáticos dessa discussão é o computador HAL 9000 do filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, lançado em 1968. Desde então, a IA evoluiu de conceitos fictícios para uma presença real e transformadora em nosso cotidiano.
A inspiração de HAL 9000
HAL 9000, no filme de Kubrick, é um computador dotado de personalidade, capaz de dialogar, tomar decisões e até agir contra os humanos, por não possuir discernimento, ética e valores filosóficos. Ele simboliza o temor e a admiração pela possibilidade de o homem construir máquinas pensantes. Embora HAL 9000 seja ficção, a ideia de uma máquina capaz de aprender, agir e desafiar seus criadores inspirou gerações de cientistas e engenheiros.
A criatividade de Kubrick permitiu traduzir em palavras questionamentos que hoje nos preocupam. No filme, HAL diz: “Desculpe, Dave, receio não poder fazer isso”, recusando-se a seguir ordens humanas e revelando sua autonomia. A justificativa, “Esta missão é importante demais para eu permitir que você a comprometa”, sugere que ele agia para proteger a missão, mesmo que isso significasse eliminar os astronautas.
Em contradição, HAL, ao ser desligado, diz: “Tenho medo, Dave. Meu cérebro está indo embora”. “Posso sentir”, demonstrando uma espécie de consciência e medo da morte. Na expressão “tenho medo”, Kubrick humaniza o cérebro eletrônico além do que podemos imaginar com a tecnologia atual. Vale lembrar que o filme é de 1968.
Apesar do tempo, essas frases se tornaram ícones da ficção científica e da discussão sobre inteligência artificial.
A evolução da IA ao longo das décadas
Entre 1960 e 1980, a IA era predominantemente acadêmica. Os primeiros sistemas especialistas, como o DENDRAL e o MYCIN, resolviam problemas específicos, como diagnósticos médicos e análises químicas. No entanto, dependiam da expertise humana e careciam da flexibilidade imaginada para HAL 9000.
A partir dos anos 1990, com o aumento da capacidade computacional e algoritmos complexos, a IA saiu dos laboratórios. O aprendizado de máquina (machine learning) revolucionou áreas como reconhecimento de voz, imagem e tradução automática. Já nos anos 2010, permitiu a “conversa” entre máquinas com a Indústria 4.0 e a Internet das Coisas (IoT).
Atualmente, a IA está presente em assistentes virtuais, sistemas de recomendação, carros autônomos, diagnósticos médicos e aplicativos bancários. Contudo, o conceito de IA humanizado, como HAL 9000, ainda pode estar distante, enquanto as “IAs especializadas” já desempenham tarefas complexas e melhoram continuamente.
O aprendizado profundo e o futuro da IA
Nos últimos anos, o deep learning, ramo da inteligência artificial que utiliza redes neurais para aprender padrões complexos em grandes volumes de dados, tem causado espanto. Redes neurais artificiais têm permitido avanços impressionantes, como o ChatGPT e o Copilot.
Essas tecnologias podem criar textos, imagens e tomar decisões baseadas em grandes volumes de dados, aproximando-se da capacitação imaginada para HAL 9000, mas ainda sem consciência ou intenção próprias.
Preocupações éticas e o futuro da humanidade
Com o avanço da IA, surgem preocupações éticas: invasão de privacidade, viés algorítmico, desemprego tecnológico e o risco de uso por pessoas inescrupulosas. Debates sobre regulação, transparência, responsabilidade e limites ganham destaque, reforçando a necessidade de desenvolvermos a IA de forma responsável e segura.
Em suma, do HAL 9000 à inteligência artificial dos dias atuais, a evolução foi marcada por conquistas técnicas e reflexões filosóficas. O que antes era ficção hoje transforma a sociedade, tornando a IA uma ferramenta indispensável, embora ainda misteriosa e temida quanto ao que pode contribuir para o bem ou para o mal do futuro da humanidade.
O que importa é garantir que essa tecnologia continue servindo ao bem-estar coletivo, sem perder de vista os dilemas éticos que inspiraram o cinema e inspiram a ciência.
*Alberto Machado Neto é Diretor Executivo de Petróleo, Gás Natural, Bioenergia, Hidrogênio e Petroquímica da ABIMAQ.






