A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi designada para assumir interinamente a Presidência do país. A decisão surge após a prisão de Nicolás Maduro em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos em Caracas. A Câmara Constitucional do Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela justificou a medida como uma ação necessária para garantir a continuidade do governo e a defesa da soberania nacional.
Análise jurídica da crise venezuelana
Segundo o advogado Marco Túlio Elias Alves, vice-presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB, o cenário é um dos mais delicados na política latino-americana. “O tribunal venezuelano tenta preservar a institucionalidade diante de uma intervenção estrangeira inédita e altamente controversa do ponto de vista do direito internacional”, avalia o jurista.
A operação militar, realizada no sábado, resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. O casal foi levado a um navio militar norte-americano no Caribe e, posteriormente, transferido para Nova York, onde deve responder por acusações como narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e posse ilegal de armamentos.
Reações e o futuro político da Venezuela
A notícia da prisão provocou reações imediatas em Caracas. Delcy Rodríguez apareceu em rede nacional ao lado de figuras-chave do chavismo e convocou o povo venezuelano à resistência, classificando a operação americana como um “sequestro”. “A Venezuela nunca será uma colônia de nenhum país. Nicolás Maduro segue sendo o único presidente da República”, afirmou a vice-presidente.
Apesar da decisão da Suprema Corte, Rodríguez continua defendendo publicamente que Maduro é o mandatário legítimo, mesmo detido em território estrangeiro. Marco Túlio Elias Alves aponta que essa dualidade política pode gerar um impasse jurídico: “Há uma tentativa clara de manter a narrativa de legalidade interna, enquanto o país lida com a pressão internacional e a real ausência do presidente de fato”.
Além disso, Alves ressalta a importância de analisar a situação sob a perspectiva do Direito Internacional: “Como advogado, é meu dever deixar convicções de lado e me ater exclusivamente ao que estabelece o Direito Internacional”.
Posicionamento dos Estados Unidos
O presidente norte-americano Donald Trump afirmou que os Estados Unidos pretendem “acompanhar uma transição democrática na Venezuela” e não descartou “ações mais robustas” caso as autoridades locais não colaborem. Trump também mencionou estar em contato com Delcy Rodríguez para discutir alternativas para uma eventual reorganização do governo.
Incertezas e o papel da comunidade internacional
Na prática, a Venezuela entra em um período de indefinição. Líderes chavistas buscam manter a coesão de suas bases e rechaçar a intervenção norte-americana. O cenário internacional observa com atenção os próximos passos de Caracas. O Supremo venezuelano confirmou que Delcy Rodríguez exercerá todos os poderes do Executivo nacional até novas análises.
Para Marco Túlio Elias Alves, trata-se de uma jogada estratégica: “É uma tentativa de impedir que o vácuo de poder sirva como justificativa para uma ocupação prolongada por forças estrangeiras”.
Crise expõe fragilidade do sistema internacional
A captura de Nicolás Maduro reabre o debate sobre os limites da soberania nacional e a legitimidade de ações unilaterais em território estrangeiro. Para especialistas em direito internacional, como Marco Túlio Elias Alves, o episódio representa uma violação direta da Carta das Nações Unidas e pode inaugurar uma perigosa jurisprudência.
Trata-se de uma intervenção militar sem aval do Conselho de Segurança da ONU, em território soberano, com consequências políticas e jurídicas profundas. É um precedente extremamente arriscado.
— Marco Túlio Elias Alves, vice-presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB
A ação lembra episódios como a prisão de Manuel Noriega, no Panamá, em 1989, mas com uma diferença: a Venezuela vive, ainda que sob fortes críticas internacionais, um regime com eleições e instituições em funcionamento.
Reação internacional e possíveis desdobramentos
A reação da comunidade internacional ainda é contida, mas observadores apontam que países da América Latina e membros do Conselho de Segurança devem se manifestar nos próximos dias. Até o momento, somente Cuba e Bolívia emitiram notas oficiais condenando a ação americana, enquanto o Brasil adotou uma postura de neutralidade.
O impasse é ainda mais sensível porque, apesar da ausência física de Maduro, seu governo, ao menos no discurso interno, permanece ativo, com Delcy Rodríguez à frente do Executivo.
A dualidade de comando é um prato cheio para conflitos diplomáticos. Quem passa a representar a Venezuela na ONU ou no Mercosul? Quem assina tratados? Quem controla o Exército?
— Marco Túlio Elias Alves, vice-presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB
Em termos jurídicos, a prisão de um chefe de Estado em exercício escancara um dilema: até onde pode ir o poder de coerção de uma potência global? E o que resta de proteção para países menores no atual arranjo internacional?
É hora de revisitar o papel das instituições multilaterais. Se elas forem ignoradas, arriscamos naturalizar a força como regra.
— Marco Túlio Elias Alves, vice-presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB
Para Marco Túlio Elias Alves, o momento é de cautela: “Mais do que punir um governo, esse tipo de ação pode mergulhar uma nação em um caos prolongado. A reconstrução da estabilidade requer diálogo, legitimidade e respeito às normas globais”.




