Golpes digitais têm se tornado uma ameaça crescente para crianças, levando famílias e escolas a priorizarem a educação digital. Uma pesquisa do Cetic.br revelou que 41% das crianças de 6 a 8 anos já utilizam a internet, e esse número ultrapassa 70% entre aquelas de 9 e 10 anos. Esse aumento da exposição online eleva os riscos de fraudes, coleta indevida de dados e abordagens de desconhecidos.
Aumento da vulnerabilidade infantil
A vulnerabilidade das crianças é intensificada pela sofisticação dos crimes digitais. A Serasa Experian observou um aumento de mais de 40% nas tentativas de fraude contra jovens. Além disso, a SaferNet Brasil aponta que as denúncias de crimes online envolvendo menores permanecem em níveis preocupantes.
Especialistas alertam que, embora muitos casos só sejam identificados na adolescência, o contato inicial com situações de risco geralmente ocorre na infância, quando as crianças ainda não possuem o discernimento necessário para reconhecer armadilhas digitais.
Livro ensina segurança digital para crianças
Nesse cenário, surge o livro O Cibernauta em a Super Senha Secreta, criado para ensinar segurança digital a crianças de 6 a 10 anos. A obra é de autoria de Daniel Meirelles, especialista em Segurança da Informação e CISO da Austral Seguradora, e do economista Eduardo Argollo. O objetivo é abordar, de forma lúdica, questões que normalmente chegam às famílias quando o problema já existe.
“A criança hoje já nasce conectada. Se a conversa sobre riscos começa tarde, ela perde completamente o caráter preventivo”, afirma Meirelles. Ele destaca que muitos golpes aplicados na adolescência exploram comportamentos aprendidos na infância, quando a orientação adequada não foi oferecida.
O papel dos pais na educação digital
O papel dos pais é crucial nesse contexto. Estudos do Cetic.br indicam que crianças que recebem orientação frequente dos pais tendem a relatar mais situações desconfortáveis e a adotar comportamentos mais seguros online.
A mediação parental vai além do controle do tempo de tela, incluindo conversas sobre senhas, pedidos de informações pessoais, links recebidos em jogos e aplicativos, e a importância de informar um adulto sobre qualquer situação suspeita. “A educação digital começa no diálogo cotidiano, não apenas em regras ou bloqueios”, reforça Meirelles.
Estratégias educativas para o público infantil
Para enfrentar esse desafio, projetos educativos buscam traduzir conceitos técnicos para a linguagem infantil. Em vez de termos como engenharia social ou vazamento de dados, são utilizadas histórias, personagens e situações cotidianas das crianças.
A ideia é ensinar comportamentos seguros de forma acessível, permitindo que a criança compreenda o risco antes de se deparar com ele. Para Eduardo Argollo, essa adaptação é essencial para uma compreensão eficaz. “Quando a criança entende por que uma senha precisa ser protegida ou por que não deve responder a desconhecidos, ela passa a agir com mais consciência, não por medo, mas por entendimento”, explica.
Argollo defende que a alfabetização digital seja integrada à formação básica. “Assim como a criança aprende a ler, escrever e lidar com dinheiro, ela precisa aprender a se comportar no ambiente digital, onde hoje acontecem relações sociais, consumo e até crimes”, afirma.
Segundo ele, abordar a segurança online na infância diminui a probabilidade de exposição a golpes mais complexos no futuro. A proposta de O Cibernauta é servir como ferramenta de alfabetização digital, auxiliando famílias e escolas na introdução do tema ainda na infância, antes que os riscos se agravem. Para os autores, antecipar essa discussão é uma forma de reduzir danos.
Quando a educação digital começa cedo, ela cria repertório. A criança cresce sabendo reconhecer limites, riscos e responsabilidades — Daniel Meirelles, CISO da Austral Seguradora.
Em um cenário onde a conectividade avança mais rapidamente que a orientação, iniciativas como essa se destacam como resposta preventiva a um problema que já impacta o dia a dia de famílias e instituições de ensino.






