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Romance aborda justiça negada na ditadura militar

Romance aborda justiça negada na ditadura militar

Nos últimos dias, o debate sobre autoritarismo, repressão e democracia ganhou força no cenário internacional, reacendendo discussões sobre a ditadura militar no Brasil e suas feridas.

A Justiça Negada às Famílias Pobres

Nesse contexto, o romance ‘Entre Montanhas e Predições’, de Felipe de Caux, lança luz sobre a justiça negada às famílias pobres durante e após o regime militar. A obra acompanha a trajetória de uma mãe que busca o filho levado pelos militares, mostrando como a classe social determinou quem teve direito à memória e à reparação.

Médico e escritor, Felipe de Caux une olhar clínico e sensibilidade literária para discutir ditadura, desigualdade e os impactos da violência de Estado.

A trama e seus personagens

Ambientada no interior de Minas Gerais, a trama começa com a protagonista já idosa em um asilo, onde sua história é reconstruída com base nos relatos que divide com seu médico. A partir dessas confidências, o leitor é conduzido ao passado, quando as antigas profecias começaram a se cumprir: o marido sucumbiu ao alcoolismo; umas das crianças faleceu ainda bebê; uma filha foi destruída pelo ciúme e pelo machismo; um filho foi vítima de homofobia; e outro consumido pela melancolia.

A busca por justiça

Entre todas as dores e perdas, o desaparecimento do jovem Francisco, levado pelos militares durante a ditadura, é a ferida que a assombrou por anos, acompanhando-a até o envelhecer. Tomada por esse vazio, Madalena transformou seu propósito em uma busca interminável pelo filho perdido e por algum traço de justiça – esta que raramente alcança as famílias pobres e invisibilizadas. Cada destino, embora atravessado pelo simbolismo do presságio, revela a dureza das estruturas sociais que sufocam quem vive sem voz.

Parecia que os esquecidos seriam finalmente lembrados, e por um tempo achou que sua espera chegaria ao fim; no entanto, apesar de reconhecerem os crimes, nada mudou, e ninguém foi punido. Os desaparecidos continuaram perdidos, ou para ser mais exato, enterrados.

— Trecho do livro ‘Entre montanhas e predições’

Memória e Verdade

Ao transformar sofrimentos reais em matéria literária, Felipe de Caux constrói um romance que denuncia, emociona e resgata aquilo que a história oficial tantas vezes tentou apagar. Na personagem central, o leitor encontra não apenas uma mulher marcada por fatalidades, mas o espelho de uma população que aprendeu a enfrentar perdas, cultivar esperança e reinventar a própria resistência diante da tragédia.

Com forte carga imagética, poética e sensível, a obra entrelaça o cotidiano ao extraordinário para revelar a complexa realidade latino-americana. Os elementos mágicos da trama surgem como extensões naturais da vida, permitindo expor injustiças, opressões e crenças populares de um modo que a narrativa realista, sozinha, não alcançaria. Assim, a ficção se torna uma ferramenta potente de memória e verdade.

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