O trope “enemies to lovers” (de inimigos a amantes) pode até parecer um fenômeno recente impulsionado pelo TikTok, mas sua força narrativa atravessa séculos. De “Orgulho e Preconceito” a comédias românticas dos anos 2000 e sucessos atuais do streaming, histórias de rivalidade que viram paixão continuam a cativar o público.
A fórmula do sucesso
No artigo “As delícias da picuinha”, a autora e cineasta Vivy Corral explora, com humor e precisão, os motivos pelos quais essas narrativas são tão irresistíveis. A autora analisa referências clássicas e contemporâneas, da literatura ao cinema e até animes, para ilustrar como a tensão entre os personagens cria uma conexão imediata com o público.
Afinal, casais felizes e estáveis não geram conflito, e sem conflito, não há história. O enemies to lovers entrega o nível máximo de tensão possível, colocando os protagonistas em posições opostas. Seja por rivalidade profissional, guerras de clãs ou simples preconceito, cria-se um campo magnético que prende o espectador à tela.
Amor e ódio: sentimentos de alta intensidade
O ódio, diferente do amor à primeira vista, exige convivência, o que força os personagens a interagirem. Essas interações, repletas de subtexto e tensão sexual não resolvida, criam ganchos poderosos ao final de cada episódio, alimentando a expectativa de que a barreira entre os personagens irá ceder.
Além disso, para que o inimigo se transforme em amante, o protagonista precisa rever suas próprias crenças e admitir que estava errado sobre o outro e, consequentemente, sobre si mesmo. Essa vulnerabilidade forçada gera uma jornada de amadurecimento e identificação.
Aí está a mágica final: a catarse de ver o outro, visto como inimigo em um mundo tão polarizado quanto as famílias de Romeu e Julieta, tornar-se o objeto de afeto. É a construção de uma ponte que, no fundo, todos nós queremos cruzar, ou queremos que alguém cruze, com o sol nas costas e dizendo ‘te amo ardentemente, Elizabeth’.
— Vivy Corral, cineasta e autora
Clássicos e exemplos modernos
Essa dinâmica está enraizada na cultura pop. Em “E o Vento Levou” (1939), Scarlett e Rhett vivem se provocando. Já em “Abaixo o Amor” (2003), os personagens de Renée Zellweger e Ewan McGregor querem passar a perna um no outro, assim como em “10 Coisas que Odeio em Você” (1999). O livro “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (2019) também explorou o tema com sucesso, ganhando adaptação no streaming.
Outro exemplo está nos animes. Em “Diários de uma Apotecária” (2023), Jinshi irrita a pragmática Maomao. Enquanto que em “Kaguya-sama: Love is War” (2019), personagens com egos enormes transformam o romance em um campo de batalha.
Vivy Corral é formada em Cinema pela FAAP e autora do livro “O amor come espaguete”.






