O futuro climático do Brasil pode estar diretamente ligado às práticas do setor hortifruti. A crise climática, frequentemente vista como um desafio distante, encontra um ponto crucial nas decisões cotidianas que envolvem a produção, distribuição e consumo de alimentos frescos.
Desperdício de alimentos e o impacto ambiental
O desperdício de alimentos, responsável por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, emerge como uma das frentes mais urgentes para mitigar o aquecimento global e modernizar a eficiência do varejo brasileiro. Nesse cenário, o setor de alimentos frescos, com destaque para frutas, legumes e verduras, assume um papel de protagonismo.
O Brasil vive um momento crucial. No âmbito internacional, a iniciativa Food Waste Breakthrough, liderada pelo PNUMA, reafirma o compromisso de reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030, associando-o diretamente à redução das emissões de metano.
Paralelamente, o país avança com a nova Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos, construída em colaboração com a Embrapa, conectando o Brasil aos compromissos internacionais relacionados aos ODS 2, 12 e 13.
Não existe política ambiental robusta que ignore o que acontece com os alimentos que produzimos, distribuímos, consumimos e, principalmente, o que deixamos de consumir.
O tamanho do desafio no Brasil
O desafio é considerável. Aproximadamente 19% dos alimentos produzidos globalmente são desperdiçados pelos consumidores, enquanto 13% se perdem antes de chegar ao varejo. No Brasil, a urbanização crescente concentra a maior parte do consumo alimentar, tornando o impacto dos resíduos orgânicos ainda mais evidente.
Tecnologia como ferramenta transformadora
É nesse contexto que a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, se apresenta como uma ferramenta transformadora. Ao analisar dados como histórico de vendas, sazonalidade e logística, a IA calcula o pedido ideal para cada item, loja e dia, ajustando-os conforme as variações de demanda.
Varejistas que adotam esse modelo têm conseguido reduzir em até 25% as perdas e em 30% as rupturas, transformando setores antes vistos como problemáticos em áreas de alta previsibilidade. Essa eficiência não só beneficia o resultado financeiro das empresas, mas também contribui para a redução de emissões e a preservação de recursos naturais.
Exemplos e o futuro sustentável
Cidades brasileiras como Curitiba, Florianópolis e Rio de Janeiro lideram o movimento global contra o desperdício, demonstrando que políticas urbanas integradas podem remodelar sistemas alimentares. Além disso, o avanço de tecnologias preditivas no varejo indica que grande parte da solução reside em decisões que podem ser implementadas no dia a dia das operações.
O combate ao desperdício se torna, assim, uma prática operacional, embasada em dados e alinhada a compromissos climáticos. Se o mundo almeja limitar o aquecimento global e reduzir as emissões de metano, é imperativo que se volte a atenção para o alimento que não é consumido e acaba se deteriorando.
Se o Brasil ambiciona assumir um papel de liderança climática, deve transformar a gestão de alimentos frescos em uma estratégia de Estado e de mercado. A inteligência artificial, ao compreender a dinâmica de produtos frescos, reconhece que não há futuro sustentável sem sistemas alimentares mais eficientes, transparentes e resilientes.
O varejo que reduzir desperdícios não estará apenas equilibrando seu estoque, mas ajudando a reescrever a relação entre comida, clima e desenvolvimento.
— Marco Perlman, cofundador e CEO da Aravita






