Após 26 anos de negociações, a União Europeia aprovou provisoriamente o acordo com o Mercosul, abrindo um mercado de 451 milhões de consumidores. Esse tratado amplia as oportunidades de exportação, mas impõe novos desafios contábeis, fiscais e comerciais para empresas brasileiras que pretendem operar no bloco.
Impacto do acordo UE-Mercosul nas empresas
Jhonny Martins, contador, advogado e vice-presidente do SERAC, explica que o acordo exige uma revisão da estrutura de custos, compliance, padrões contábeis e planejamento financeiro para competir no mercado europeu. Ou seja, as empresas precisam se preparar para essa nova realidade.
Segundo dados da Comissão Europeia, o comércio entre União Europeia e Mercosul movimenta cerca de € 110 bilhões por ano. No caso do Brasil, a União Europeia já é o segundo maior parceiro comercial, representando aproximadamente 15% das exportações do país, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A expectativa é que a redução ou eliminação de tarifas aumente a competitividade de produtos industriais, manufaturados e do agronegócio.
Profissionalização da gestão financeira e contábil
Martins avalia que o principal efeito imediato para as empresas será a necessidade de profissionalizar a gestão financeira e contábil. “O mercado europeu exige rastreabilidade de custos, clareza na composição de preços e aderência a normas internacionais. Isso muda a lógica de muitas empresas brasileiras que ainda operam com contabilidade voltada apenas ao cumprimento fiscal”, observa.
O acordo estabelece regras comuns para comércio de bens, investimentos e padrões regulatórios, o que tende a pressionar as empresas brasileiras a adotarem práticas alinhadas a normas internacionais, como IFRS, além de controles rigorosos sobre a origem dos produtos, sustentabilidade e governança. “Empresas que já têm relatórios bem estruturados, separação clara de custos e planejamento tributário saem na frente”, diz Martins.
Além disso, um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o acordo pode elevar o PIB brasileiro em até 0,4% no longo prazo, com ganhos concentrados em setores com maior capacidade de adaptação às exigências técnicas e regulatórias.
Como se preparar para o novo cenário
Para aproveitar o novo cenário, especialistas apontam que a organização interna será decisiva. Nesse sentido, Martins destaca três frentes principais:
- Revisar a estrutura de custos e precificação.
- Investir em compliance contábil e fiscal.
- Estruturar processos de vendas internacionais.
Segundo dados do Banco Mundial, diferenças regulatórias e falhas de conformidade representam até 15% do custo adicional de exportação para mercados desenvolvidos. “O acordo reduz tarifas, mas não elimina a complexidade operacional. A contabilidade passa a ser estratégica, não apenas operacional”, afirma o executivo.
Por que a negociação demorou tanto?
As mais de duas décadas de negociações refletem resistências políticas e econômicas, principalmente de países europeus com um forte setor agrícola. França e Irlanda lideraram a oposição ao tratado, alegando riscos de concorrência com produtos latino-americanos mais baratos e com padrões ambientais distintos.
A sinalização favorável da Itália, após a Comissão Europeia indicar a liberação de € 45 bilhões em apoio aos agricultores, foi considerada decisiva para destravar o processo. Dessa forma, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ficou autorizada a assinar o tratado.
Para o Brasil, o acordo representa uma oportunidade histórica, mas condicionada à capacidade de adaptação das empresas.
O tratado não é um atalho. Ele premia quem já está organizado ou quem decidir se estruturar agora. A contabilidade, nesse contexto, deixa de ser bastidor e passa a ser protagonista da estratégia de crescimento. — Jhonny Martins, contador, advogado e vice-presidente do SERAC






