A falta de placas de vídeo deixou de ser um problema restrito a gamers e entusiastas de hardware, impactando diretamente empresas, governos e centros de pesquisa. No centro desse cenário está a explosão da demanda por inteligência artificial generativa (IA), que transformou as GPUs em insumo estratégico para o desenvolvimento econômico e tecnológico, revelando fragilidades na cadeia global de semicondutores.
Aumento da demanda por chips de alto desempenho
Abner Crivellari, fundador da DIOTI e especialista em arquitetura de software e infraestrutura para inteligência artificial, afirma que o avanço acelerado da IA impulsionou a demanda por chips de alto desempenho, contribuindo para o desabastecimento desde 2023.
O treinamento de modelos de linguagem e visão computacional exige milhares de GPUs operando simultaneamente, pressionando fabricantes como Nvidia e AMD. “A GPU deixou de ser apenas um componente de hardware e passou a ser o motor central da economia da IA”, diz.
Concentração da produção e gargalos industriais
Essa corrida tecnológica esbarra em um problema estrutural: a produção de chips avançados é altamente concentrada. Atualmente, mais de 90% dos semicondutores de última geração são fabricados por poucas empresas na Ásia, com destaque para a taiwanesa TSMC. Essa concentração limita a capacidade de resposta do mercado diante de picos de demanda e torna a cadeia vulnerável a eventos geopolíticos, climáticos ou logísticos.
Além disso, mesmo com investimentos bilionários anunciados, novas fábricas levam anos para entrar em operação. O resultado é um descompasso entre oferta e demanda que mantém o mercado tensionado. “Não existe solução rápida porque estamos falando de uma indústria com ciclos longos, alto custo e dependência extrema de know-how especializado”, explica Crivellari.
Para ele, a escassez atual é reflexo de decisões tomadas antes da pandemia, quando a expansão da capacidade produtiva não acompanhou o ritmo da transformação digital.
A geopolítica dos chips e a disputa entre potências
A escassez de placas de vídeo está diretamente ligada à geopolítica. Estados Unidos e China disputam o domínio da tecnologia de semicondutores, com sanções, restrições à exportação e incentivos estatais moldando o mercado.
As limitações impostas pelo governo americano à venda de GPUs avançadas para empresas chinesas redirecionaram parte da oferta global e aumentaram a pressão sobre outros mercados.
Esse movimento levou países a tratarem chips como ativos estratégicos. Programas como o CHIPS Act, nos Estados Unidos, e iniciativas semelhantes na União Europeia buscam reduzir a dependência externa e garantir soberania tecnológica. “A guerra dos chips não é apenas comercial, é uma disputa por poder econômico e influência no desenvolvimento da IA”, afirma Crivellari.
Impacto nos preços e nas empresas
Na prática, a escassez se traduz em preços elevados e contratos de fornecimento cada vez mais disputados. GPUs voltadas para data centers registraram aumentos superiores a 40% em determinados períodos, segundo levantamentos do setor.
Pequenas e médias empresas, sem poder de barganha, são as mais afetadas, precisando adiar projetos de IA ou recorrer a serviços de nuvem, que também enfrentam pressão de demanda.
Diante desse cenário, empresas revêem estratégias. Algumas investem em otimização de modelos para reduzir o consumo de hardware, enquanto outras firmam contratos de longo prazo com provedores de infraestrutura. “A eficiência deixou de ser apenas uma questão técnica e passou a ser uma questão de sobrevivência competitiva”, ressalta Crivellari.
Um problema sem solução imediata
Apesar dos anúncios de expansão industrial, a normalização do mercado não deve ocorrer no curto prazo. A demanda por IA segue crescendo em setores como saúde, finanças, indústria e serviços, mantendo as GPUs no centro das decisões estratégicas. Ao mesmo tempo, a instabilidade geopolítica continua sendo um fator de risco permanente.
Para o especialista, a falta de placas de vídeo é um sintoma de um fenômeno mais amplo: a transição para uma economia baseada em dados e inteligência artificial, sustentada por uma infraestrutura ainda limitada. “A escassez atual mostra que a IA não é apenas software, ela depende de decisões industriais e políticas que vão definir quem lidera a próxima década”, conclui Crivellari.






