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Acordo Mercosul-UE: Integração Possível, Desenvolvimento Incerto, diz advogada

Acordo Mercosul-UE: Integração Possível, Desenvolvimento Incerto, diz advogada

O acordo Mercosul-UE representa um marco no comércio internacional, com implicações políticas e econômicas significativas. Após 25 anos de negociações, o tratado avança em um cenário global de fragmentação das cadeias produtivas e aumento do protecionismo.

A advogada Nailia Aguado Ribeiro Franco, da Andersen Ballão Advocacia, analisa os principais aspectos desse acordo e suas potenciais consequências para o Brasil e os demais países do Mercosul.

O que prevê o acordo?

De forma simplificada, o acordo visa reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação, focando nos produtos em que cada bloco se destaca, seja por tecnologia ou vantagens regionais. Além disso, estabelece regras comuns para o comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.

Na prática, o Mercosul zerará tarifas sobre cerca de 91% dos bens europeus em até 15 anos, enquanto a União Europeia eliminará tarifas sobre aproximadamente 95% dos bens originários do Mercosul em até 12 anos. Isso indica um alto grau de liberalização comercial entre as partes.

Tramitação e desafios

Apesar da aprovação do texto pela Comissão Europeia, o processo ainda não está concluído. O Parlamento Europeu precisa aprovar o acordo, o que deve ocorrer nos próximos meses. No Mercosul, a aprovação depende dos Congressos nacionais de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, adicionando um componente político interno relevante.

O agronegócio em foco

Embora o acordo abranja diversos setores, o agronegócio sempre foi um ponto sensível nas negociações. O texto prevê a eliminação de tarifas de importação sobre 77% dos produtos agropecuários exportados pelo Mercosul à União Europeia, com prazos de transição entre quatro e dez anos.

Alimentos considerados sensíveis pelos europeus, como aves, suínos, açúcar, etanol, arroz, mel e milho, estarão sujeitos a cotas de exportação, um mecanismo de liberalização controlada para proteger a produção local.

Indicações geográficas e salvaguardas

O acordo reconhece cerca de 350 indicações geográficas para proteger alimentos tradicionais da UE, como “Parmigiano Reggiano” e “Prosciutto di Parma”. Além disso, incorpora mecanismos de salvaguarda que permitem à União Europeia suspender temporariamente benefícios tarifários em caso de impacto relevante sobre seu mercado interno.

Assimetrias e críticas

Sob a perspectiva sul-americana, uma crítica frequente é que o acordo ainda reflete uma lógica estrutural de “Norte x Sul Global”. O Mercosul continua posicionado como exportador de commodities agrícolas, enquanto a UE amplia o acesso para produtos industriais de maior valor agregado.

O acordo ainda reflete uma lógica estrutural de ‘Norte x Sul Global’.

— Nailia Aguado Ribeiro Franco, advogada da Andersen Ballão Advocacia

Além disso, existem preocupações com exigências ambientais e regulatórias rigorosas, que podem impor custos adicionais aos produtores do Mercosul, especialmente às pequenas e médias empresas.

Serviços, investimentos e compras públicas

O acordo também avança sobre o comércio de serviços e investimentos, reduzindo discriminações regulatórias contra investidores estrangeiros e ampliando compromissos em setores como serviços financeiros, telecomunicações, transporte e serviços empresariais.

Outro ponto relevante é a abertura de compras públicas, permitindo que empresas do Mercosul participem de licitações na UE sob regras mais transparentes e previsíveis.

Cláusulas ambientais

No campo ambiental, as cláusulas assumem caráter vinculante, condicionando benefícios tarifários ao cumprimento de compromissos ambientais, incluindo a proibição da comercialização de produtos associados ao desmatamento ilegal, e a possibilidade de suspender o acordo em caso de violação do Acordo de Paris.

Tensão no comércio internacional

O avanço do acordo ocorre em um momento de tensão no comércio internacional, marcado pelo aumento de tarifas adotado pelos Estados Unidos, que afetou a União Europeia e influenciou a defesa do tratado por países como Alemanha e Espanha.

Para destravar as negociações, a UE impôs o reforço de salvaguardas ao seu setor agrícola e sinalizou a redução de tarifas sobre fertilizantes, diminuindo os custos de produção para os agricultores locais.

Oportunidades e desafios para o Brasil

Para o Brasil, a maior economia do Mercosul, o tratado amplia o acesso a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores e tende a gerar impactos que vão além do agronegócio, alcançando segmentos relevantes da indústria e estimulando investimentos bilaterais.

Em um cenário global cada vez mais fragmentado, o acordo sinaliza uma aposta no multilateralismo e na integração econômica como instrumentos de estabilidade e crescimento. No entanto, a efetiva distribuição dos benefícios dependerá da capacidade dos países do Mercosul de formular políticas públicas não protecionistas, em especial do Brasil, capazes de evitar a perpetuação de assimetrias e promover maior agregação de valor no longo prazo.

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