O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, traz à tona uma realidade preocupante: a intolerância religiosa afeta mais de dois terços da população mundial. De acordo com o Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo 2025, da ACN, cerca de 5,4 bilhões de pessoas sofrem com graves violações em 62 países.
Cenário brasileiro
No Brasil, o cenário também é alarmante. Em 2025, foram registradas aproximadamente 3 mil denúncias e 4 mil violações de cunho religioso ou de crença, segundo dados do Painel do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Praticantes de religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé, são as principais vítimas de discriminação, conforme o Relatório da UNESCO sobre intolerância religiosa no Brasil, América Latina e Caribe.
Impacto no ambiente de trabalho
Em 2024, dados do Ministério de Direitos Humanos revelaram que a maioria das vítimas de intolerância religiosa (60%) são mulheres. Grande parte desses episódios ocorre no ambiente de trabalho, manifestando-se por meio de humilhações, constrangimentos e restrições.
A psicanalista Ana Tomazelli, Presidente do Ipefem e Co-fundadora do Ipecre, alerta para o impacto profundo dessa intolerância na saúde mental dos profissionais. “Os valores religiosos fazem parte da vida cotidiana das pessoas e se manifestam através de roupas, acessórios e comportamentos”, explica Tomazelli. Além disso, ela afirma que a falta de respeito no ambiente corporativo reflete um preconceito da sociedade.
A relação entre religião e saúde mental no trabalho
Estudos indicam que políticas de diversidade e inclusão que incorporam a dimensão religiosa estão associadas a maior bem-estar e redução de conflitos internos. Ana observa que as práticas religiosas, especialmente de religiões de matriz africana, enfrentam resistência.
“Enquanto a maioria das empresas aceita o uso de terços ou japamalas, guias e outros símbolos das religiões afro-brasileiras são, muitas vezes, vetados e hostilizados. Isso revela um preconceito estrutural entrelaçado com racismo e xenofobia, que impacta diretamente a saúde mental dos profissionais”, destaca Ana.
A importância da inclusão religiosa
A falta de inclusão religiosa nas políticas de diversidade é uma lacuna crítica, especialmente no Brasil, onde há uma predominância histórica de uma matriz religiosa cristã. Segundo Tomazelli, esse desequilíbrio afeta a saúde mental de muitos colaboradores. “A conversa sobre religião no ambiente de trabalho deve ocorrer para que as empresas promovam um ambiente realmente inclusivo”, enfatiza.
No último ano, o Tribunal Superior do Trabalho publicou uma reportagem especial sobre “Intolerância religiosa: consequências no trabalho”, destacando que ofensas, impedimento de uso de símbolos religiosos e retaliações configuram discriminação e podem gerar indenizações.
Pesquisas internacionais reforçam esse cenário. Nos Estados Unidos, levantamento da Society for Human Resource Management aponta que 52% dos trabalhadores que vivenciaram episódios de incivilidade relatam impactos diretos no trabalho.
Desafios e caminhos para o respeito
A pressão para que a prática religiosa não interfira no ambiente corporativo deve ser equilibrada com o direito dos colaboradores à expressão religiosa. Estudos da OIT mostram que ambientes de trabalho que não acomodam a diversidade de crenças religiosas apresentam maior rotatividade e níveis elevados de estresse.
Para Ana Tomazelli, é fundamental que o respeito seja bilateral: “O ambiente de trabalho não é lugar para conversão, mas também não deve ser um espaço de restrição à identidade religiosa.” Ela acredita que as empresas precisam rever suas políticas e estabelecer protocolos que permitam uma convivência harmoniosa.
Segundo a especialista, “negar o direito a símbolos religiosos sem justificativa racional, contextualizada e uniforme é um ato de discriminação”.
O impacto na saúde mental
O desgaste emocional causado pela intolerância religiosa afeta a saúde mental dos profissionais, impactando nos índices de ansiedade e depressão. Tomazelli afirma que “a intolerância é um tipo de violência simbólica, e como tal, ela afeta a autoestima e a capacidade de concentração”.
O Brasil, com uma das legislações mais amplas sobre liberdade religiosa, ainda enfrenta dificuldades para fazer valer essa proteção no dia a dia.
“As empresas precisam se perguntar o que perdem ao restringir a expressão religiosa e o quanto podem ganhar ao promover respeito e segurança psicológica. Ambientes seguros tendem a ser mais produtivos — e isso pode representar um aumento de até 7% nos resultados financeiros”, finaliza Ana Tomazelli.
As empresas precisam se perguntar o que perdem ao restringir a expressão religiosa e o quanto podem ganhar ao promover respeito e segurança psicológica. Ambientes seguros tendem a ser mais produtivos — e isso pode representar um aumento de até 7% nos resultados financeiros.
— Ana Tomazelli, Presidente do Ipefem e Co-fundadora do Ipecre






