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Ação militar na Venezuela: Brasileiros preferem neutralidade

Ação militar na Venezuela: Brasileiros preferem neutralidade

Uma pesquisa Ipsos-Ipec, realizada entre 10 e 14 de janeiro, investigou a opinião dos brasileiros sobre a recente ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa. Os dados revelam um cenário complexo, onde a concordância com a ação coexiste com o desejo de neutralidade do Brasil.

O levantamento, que entrevistou 2.000 pessoas em 130 municípios brasileiros, mostra que 51% dos brasileiros concordam total ou parcialmente com a ação dos Estados Unidos contra a Venezuela. Em contrapartida, 28% discordam total ou parcialmente, 6% não concordam nem discordam, e 15% preferiram não opinar.

Apoio à ação militar: quem concorda?

A concordância com a intervenção americana é mais expressiva entre brasileiros com renda familiar superior a 5 salários mínimos (62%), evangélicos (61%), pessoas de 25 a 34 anos (60%), aqueles com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos (59%) e homens (58%).

Além disso, a pesquisa revela a opinião dos eleitores dos candidatos que disputaram o segundo turno da eleição presidencial em 2022: entre os que votaram em Jair Bolsonaro, 73% concordam com a ação, enquanto entre os eleitores de Lula, esse índice é de 34%. A parcela que discorda da decisão do governo americano é mais acentuada entre os moradores do Nordeste, onde atinge 35%.

Motivações da ação: petróleo ou democracia?

Apesar do apoio à ação militar, não há consenso sobre as motivações do governo americano. Para 26% dos entrevistados, a principal razão foi o controle do petróleo e dos recursos naturais da Venezuela. A defesa da democracia e dos direitos humanos dos venezuelanos aparece em segundo lugar, com 22% das menções, seguida pelo combate ao narcotráfico, com 18% das respostas.

Ademais, a garantia da segurança nacional dos Estados Unidos e o enfraquecimento dos governos de esquerda na América Latina são citados por 6% dos entrevistados cada. Um total de 23% não soube opinar.

Interesse econômico vs. defesa da democracia

O controle do petróleo é apontado como a principal motivação especialmente entre os brasileiros mais instruídos (39%) e aqueles com maior renda familiar (38% entre os que têm renda superior a 5 salários mínimos e 33% entre aqueles cuja renda fica entre 2 e 5 salários mínimos). Já a defesa da democracia e dos direitos humanos dos Venezuelanos são citados de forma mais significativa por evangélicos (31%) e eleitores de Bolsonaro em 2022 (30%).

Os dados revelam uma dualidade na percepção dos brasileiros. Por um lado, há um apoio pragmático a uma ação de força contra um regime visto como autoritário. Por outro, há uma desconfiança histórica sobre as reais intenções de intervenções geopolíticas na América Latina, com o interesse econômico sendo visto como o principal motor.

— Marcia Cavallari, head da Ipsos-Ipec

Impacto no Brasil: opiniões divididas

As opiniões sobre as consequências para o Brasil são variadas, refletindo a incerteza do cenário: 29% acreditam que a ação trará consequências negativas para o país, 23% veem impactos positivos e 28% avaliam que não haverá nenhuma consequência; outros 20% não souberam responder.

As consequências negativas são mais citadas por quem tem o ensino superior (41%), enquanto a crença de que serão positivas é mais forte entre os eleitores de Bolsonaro em 2022 (36%) e os evangélicos (30%).

Neutralidade é a preferência nacional

Quando questionados sobre como o Brasil deveria se posicionar, a resposta é clara: dois em cada três brasileiros (66%) defendem que o país se mantenha neutro. Em contrapartida, 17% acreditam que o Brasil deveria apoiar a ação militar, e 9% que deveria ser contra. Os que não sabem ou não respondem à pergunta somam 9%.

A opinião de que o Brasil deveria apoiar a ação dos Estados Unidos na Venezuela é mais significativa entre os eleitores de Bolsonaro em 2022 (28%) e os evangélicos (24%).

Medo de intervenção no Brasil?

A pesquisa também mediu o receio de que uma ação semelhante pudesse ocorrer no Brasil. A maioria (57%) afirma não ter medo algum de que isso aconteça. Contudo, 37% dos entrevistados manifestam algum nível de preocupação, sendo que 14% dizem ter muito medo e 23%, um pouco de medo. Nessa pergunta, 6% não souberam ou preferiram não opinar.

A grande maioria dos homens (71%) e dos eleitores de Bolsonaro (70%) alega não ter qualquer medo de que o governo americano faça no Brasil o mesmo que fez na Venezuela. Além disso, 69% dos brasileiros com renda familiar superior a 5 salários mínimos e 66% daqueles com renda de mais de 2 a 5 salários mínimos têm a mesma opinião. Apesar disso, é considerável a parcela de mulheres (48%), de eleitores do Lula em 2022 (48%), de quem tem renda de até 1 salário mínimo (45%), de moradores do Nordeste (45%) e de pessoas menos escolarizadas (43%), que declaram ter muito ou um pouco de medo de que isso aconteça.

Por fim, questionados diretamente sobre a probabilidade de uma ação militar americana similar ocorrer no Brasil, a percepção de baixo risco prevalece, embora com nuances. Um terço dos entrevistados (33%) classifica a chance como nula, e, somados aos 20% que consideram que há uma pequena chance, formam uma maioria de 53% que vê o cenário como improvável. Em contrapartida, o resultado indica que, embora a maioria não tema uma intervenção direta, a preocupação atinge quase quatro em cada dez brasileiros: 38% percebem um risco real de que algo semelhante aconteça no país, avaliando a chance como média (23%) ou grande (15%). Os que não sabem ou não respondem à pergunta somam 10%.

Para 33% dos brasileiros com renda familiar maior que 5 salários mínimos e para 28% daqueles que têm ensino superior, é pequena a chance dos Estados Unidos adotarem essa mesma medida no Brasil.

A preferência massiva pela neutralidade é um recado claro da população para a diplomacia brasileira. O desejo por uma postura de ‘não envolvimento’ supera as divisões ideológicas e mostra um consenso raro em um país tão polarizado.

— Marcia Cavallari, head da Ipsos-Ipec

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