Relatórios de cibersegurança apontam que senhas fracas são uma das principais causas de vazamentos de dados e fraudes digitais. No Brasil, o uso da internet começa cada vez mais cedo, com crianças criando contas e reutilizando combinações simples, segundo estudos da NordPass, Serasa Experian e do Cetic.br.
Para Daniel Meirelles e Eduardo Argollo, criadores do projeto O Cibernauta, ensinar crianças a criar senhas fortes desde cedo é uma estratégia de prevenção a longo prazo. Eles listam cinco orientações para pais e educadores transformarem o tema em hábito cotidiano e reduzir riscos futuros no ambiente digital.
A importância da educação digital precoce
O uso de senhas fracas permanece entre as principais causas de vazamentos de dados no mundo. Relatórios internacionais de cibersegurança indicam que credenciais comprometidas são um dos vetores mais frequentes de invasões a sistemas corporativos e contas pessoais.
No Brasil, levantamentos anuais da NordPass continuam registrando combinações simples e previsíveis entre as mais utilizadas, enquanto estudos da Serasa Experian indicam crescimento consistente nas tentativas de fraude digital envolvendo perfis jovens. Diante desse cenário, especialistas avaliam que ensinar crianças a criar senhas fortes passou a integrar estratégias de prevenção de longo prazo contra crimes digitais.
A discussão tem sido incorporada a iniciativas pedagógicas como o livro infantil “O Cibernauta em a Super Senha Secreta”, primeiro título de uma coleção voltada a crianças de 6 a 10 anos, criado por Daniel Meirelles, especialista em transformação digital pelo MIT, e pelo economista Eduardo Argollo.
A obra parte de situações do cotidiano digital para explicar, de forma lúdica, porque senhas frágeis representam risco e como criar combinações mais seguras. A proposta surge em um momento em que o contato com a internet ocorre cada vez mais cedo e sem o devido acompanhamento pedagógico ou técnico.
O cenário atual e os desafios
Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Cetic.br, mostram que quatro em cada dez crianças de 6 a 8 anos já utilizam a internet, sendo o celular o principal meio de acesso e o uso acontece majoritariamente dentro de casa. Especialistas alertam que esse ambiente favorece a criação de contas, jogos e cadastros com senhas simples, muitas vezes repetidas, que acabam sendo mantidas ao longo dos anos.
Uma das estratégias defendidas por especialistas em segurança digital é transformar o aprendizado em algo concreto e aplicável no dia a dia. A experiência de projetos educativos voltados à infância mostra que algumas práticas simples ajudam pais e educadores a ensinar crianças a criarem senhas mais seguras desde cedo.
Para Daniel Meirelles, a fragilidade das senhas está no centro da maior parte dos ataques digitais.
Grande parte das invasões começa por combinações óbvias, reutilizadas ou compartilhadas. Quando esse hábito se forma cedo, ele se perpetua e amplia a superfície de risco no futuro — Daniel Meirelles, especialista em transformação digital.
O desafio está em como abordar o tema com crianças pequenas. Conceitos técnicos como autenticação, vazamento de dados ou engenharia social costumam ser complexos para esse público e, em geral, só entram na conversa quando o problema já ocorreu.
O discurso baseado apenas em proibição não cria compreensão. A criança precisa entender o sentido da proteção — diz Meirelles.
É nesse momento que a segurança da informação passa a ser traduzida em narrativa, no lugar de termos técnicos, entram em cena histórias, personagens e conflitos próximos da realidade infantil. No livro, a senha aparece como um elemento central da trama, permitindo que a criança compreenda o risco antes de enfrentá-lo no ambiente digital real.
Eduardo Argollo, economista e coautor do projeto, destaca o impacto comportamental do aprendizado precoce.
Quando a criança aprende desde cedo por que uma senha precisa ser protegida, ela desenvolve noções de responsabilidade e consequência que extrapolam o ambiente online. É uma formação de comportamento, não apenas de conhecimento técnico — afirma.
A proposta do primeiro livro da coleção é envolver pais e filhos na mesma leitura, estimulando o diálogo em casa.
Muitas vezes, os adultos percebem durante a leitura que também utilizam senhas frágeis ou repetidas — diz Meirelles. Segundo ele, esse efeito colateral é parte da estratégia educativa, já que a segurança digital depende de práticas compartilhadas no ambiente familiar.
Para os autores, antecipar a conversa funciona como estratégia de redução de danos, não elimina riscos, mas cria repertório. Uma criança que cresce entendendo limites e cuidados no ambiente digital tende a ser menos vulnerável a golpes mais complexos no futuro.
Cinco dicas para criar senhas fortes
Iniciativas voltadas à infância passam a integrar o debate sobre prevenção. Ensinar crianças a criar senhas fortes, avaliam especialistas, deixa de ser apenas um tema educativo e se consolida como uma estratégia de longo prazo contra fraudes digitais. Os especialistas separaram cinco dicas para auxiliarem nesse processo:
- Explicar a senha como um segredo pessoal: A criança tende a compreender melhor quando a senha é apresentada como algo íntimo, semelhante a um segredo que não deve ser compartilhado com amigos ou desconhecidos, nem mesmo em jogos ou aplicativos.
- Evitar nomes, datas e palavras óbvias do cotidiano: Ensinar que nomes próprios, apelidos, datas de aniversário e sequências numéricas são fáceis de adivinhar ajuda a criança a perceber por que essas combinações representam risco.
- Usar frases ou combinações criativas: Transformar a senha em uma pequena frase ou mistura de palavras, números e símbolos estimula a criatividade e facilita a memorização sem comprometer a segurança.
- Não reutilizar a mesma senha em jogos e aplicativos diferentes: Mesmo para crianças, o hábito de repetir a mesma senha amplia a exposição a vazamentos. A orientação deve ser clara de que cada conta importante precisa de uma combinação diferente.
- Associar a criação da senha a uma rotina familiar: Criar ou revisar senhas junto com um adulto fortalece o aprendizado e abre espaço para diálogo. O processo deixa de ser uma regra isolada e passa a integrar a educação digital cotidiana.






