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Morte aparente: perita do SAMU alerta sobre caso em Bauru

Morte aparente: perita do SAMU alerta sobre caso em Bauru

O caso da jovem Fernanda Cristina Policarpo, 29 anos, dada como morta por uma equipe do SAMU após atropelamento em Bauru, interior de São Paulo, e reanimada minutos depois, expõe fragilidades no atendimento pré-hospitalar. Para discutir as possíveis falhas no atendimento, a especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, Caroline Daitx, que também é ex-intervencionista do SAMU do Rio Grande do Sul, concedeu entrevista.

Imagens divulgadas mostram testemunhas afirmando que a vítima “estava respirando” enquanto era mantida coberta. A Prefeitura de Bauru confirmou o afastamento da médica e a abertura de sindicância. A paciente segue internada em estado grave na UTI do Hospital de Base de Bauru.

Procedimentos em via pública exigem rigor

De acordo com Caroline Daitx, a constatação de óbito em via pública é um ato médico que exige exame minucioso e padronizado, especialmente em casos de trauma, como atropelamentos. Além disso, ela ressalta que, em atendimento pré-hospitalar, não se declara morte por exclusão.

É obrigatório verificar, de forma rigorosa, a ausência de atividade cardíaca, respiratória, resposta neurológica e comportar-se conforme protocolos do Ministério da Saúde. Na dúvida, a conduta deve sempre ser salvar a vida, nunca encerrá-la prematuramente — Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica.

A médica explica que sinais vitais não podem ser negligenciados, mesmo que discretos. “Respiração mínima, pulso carotídeo fraco, sons cardíacos tênues, movimentação involuntária ou reatividade pupilar são sinais que obrigam a equipe a manter o atendimento”, completa.

Importância da dupla checagem

Em cenas ruidosas, com estresse elevado, o risco de erro humano existe, mas é exatamente por isso que protocolos de dupla checagem existem. Mais de um profissional deve examinar o paciente antes de declarar óbito.

Morte real x morte aparente

A perita chama atenção para um ponto-chave frequentemente confundido: a diferença entre morte real e morte aparente. A morte aparente é reversível, ocorrendo quando os sinais vitais estão tão deprimidos que simulam ausência completa de vida. Já a morte real é irreversível.

No trauma, a possibilidade de morte aparente existe e exige cuidado redobrado. Cobrir um paciente antes de confirmar definitivamente o óbito é antiético e inseguro — Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica.

Implicações de uma declaração equivocada

Questionada sobre as consequências jurídico-profissionais, Daitx é categórica: “Uma declaração equivocada de morte tem implicações legais e éticas severas. Pode configurar negligência, imperícia e responsabilidade administrativa, civil e até penal”.

Segundo ela, Conselhos de Medicina podem instaurar processos disciplinares e o serviço pode ser responsabilizado por falhas institucionais e ausência de supervisão adequada.

Educação continuada e segurança do paciente

Com experiência em atendimento de alta complexidade, a médica destaca que episódios como o de Bauru expõem a necessidade urgente de educação continuada das equipes, padronização de condutas e fortalecimento da cultura de segurança do paciente.

“No SAMU, um paciente só é considerado morto após avaliação criteriosa e, geralmente, após tentativas de reanimação conforme os protocolos internacionais. Esse caso mostra o quanto é essencial reavaliar procedimentos, treinar equipes e reforçar que, em ambiente pré-hospitalar, o protocolo precisa ser seguido à risca. Não há margem para interpretação individual”, finaliza.

A perita conclui afirmando que, embora tragédias possam ocorrer em situações de emergência, erros como esse são evitáveis quando há preparo técnico e protocolos sólidos.

Esse caso precisa servir como alerta nacional. Uma vida quase se perdeu porque exame foi falho. A sociedade precisa confiar no sistema de emergência — e isso só é possível quando erros graves levam a mudanças estruturais — Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica.

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