O Dia Mundial de Trocar Sua Senha, celebrado em 1º de fevereiro, ganha ainda mais relevância diante do crescente número de vazamentos de dados e ataques cibernéticos. Globalmente, cerca de 23 bilhões de contas digitais foram violadas até outubro de 2025, de acordo com um levantamento da Surfshark. Este dado reforça um alerta constante no ambiente digital: senhas fracas, previsíveis ou reutilizadas continuam sendo as principais portas de entrada para crimes cibernéticos.
A importância da troca regular de senhas
Especialistas em segurança digital destacam a importância de transformar a troca de senhas em um hábito regular, e não apenas uma ação isolada. Afinal, trocar as credenciais com frequência é crucial, especialmente considerando o aumento constante de vazamentos e tentativas de invasão.
Além disso, dados recentes confirmam que a comodidade frequentemente se sobrepõe à segurança. A pesquisa global “As 200 Senhas Mais Comuns”, realizada pela NordPass e NordStellar, analisou informações públicas e repositórios da dark web entre setembro de 2024 e setembro de 2025, abrangendo 44 países.
Globalmente, a senha “123456” lidera o ranking pelo sexto ano consecutivo, aparecendo em mais de 21 milhões de contas. Em seguida, surgem combinações como “admin”, “12345678” e “123456789”, todas baseadas em sequências simples e fáceis de serem descobertas por ferramentas automatizadas. A palavra “senha” também figura entre as mais utilizadas, com cerca de 3 milhões de ocorrências.
O fato de as pessoas continuarem usando ‘123456’ não é fruto de uma escolha pensada sobre riscos; é reflexo de que elas nem sequer pensam sobre o assunto. Existe um apagão de consciência digital onde o usuário médio não associa o ato de criar uma senha simples à possibilidade de um crime real. A estatística é alarmante: hoje, o volume de boletins de ocorrência por golpes digitais no Brasil já supera o de todos os outros crimes somados. Vivemos uma epidemia de fraudes, mas como não há violência física imediata, a percepção de perigo é nula, e a conveniência acaba vencendo por W.O.
— Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes, professor de MBA na Fundação Getulio Vargas (FGV) e palestrante internacional
No Brasil, o levantamento revela padrões igualmente preocupantes. Senhas como “mudar123”, “escola1234” e “gvt12345” mostram que muitos usuários reconhecem a necessidade de trocar credenciais, mas acabam optando por combinações igualmente previsíveis, mantendo o risco elevado.
O cenário de ataques no Brasil
O cenário nacional reforça a gravidade do problema. Dados da Fortinet apontam que o Brasil concentrou 84% das tentativas de ataques cibernéticos da América Latina em 2025, totalizando 315 bilhões de tentativas apenas no primeiro semestre do ano.
Além disso, de acordo com a NordPass, cerca de 80% das violações estão associadas ao uso de senhas fracas ou reutilizadas, o que amplia o impacto de um único vazamento para múltiplos serviços.
Políticas de senhas fortes, autenticação multifator e revisões periódicas não são apenas boas práticas, são requisitos mínimos de governança e compliance.
— Marileusa Cortez, especialista em governança, Data Governance Manager da Keyrus
Fernando Corrêa, especialista em segurança cibernética e CEO da Security First, afirma que o uso de senhas fracas e previsíveis atravessa gerações. “Mesmo entre nativos digitais da Geração Z, os mesmos erros cometidos por usuários mais velhos se repetem na escolha de credenciais. Combinações como “123456” ou “admin” podem ser quebradas em frações de segundo por ferramentas automatizadas hoje amplamente acessíveis a cibercriminosos”, explica.
Nesse sentido, as boas práticas de segurança exigidas das empresas precisam ir além da governança corporativa e fazer parte da vida digital de cada indivíduo. Todos buscam praticidade no dia a dia, mas, no mundo digital, isso pode custar caro. Uma única senha facilita a rotina, mas amplia o impacto de um vazamento. Diversificar senhas e ativar múltiplos fatores de autenticação são atitudes simples que reduzem muito o risco.
Atenção redobrada aos aplicativos bancários
Aplicativos bancários e de fintechs concentram dados sensíveis e continuam entre os principais alvos de ataques cibernéticos. Em março de 2025, 25.349 chaves Pix da fintech QI SCD foram expostas após falhas sistêmicas. Já em julho, um vazamento envolvendo o sistema Pix resultou no comprometimento de dados de 11 milhões de usuários, incluindo nomes completos, chaves, bancos, agências e números de conta, conforme informações do Banco Central e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A maioria dos ataques bem-sucedidos no setor financeiro explora senhas fracas ou reutilizadas. Uma senha ideal deve ter, pelo menos, 15 caracteres, combinando letras maiúsculas, minúsculas, números e símbolos. A troca regular dessas credenciais é a primeira linha de defesa contra fraudes.
— Fernando Corrêa, especialista em segurança cibernética e CEO da Security First
Segundo a NordPass, 65,8% das senhas analisadas possuem menos de 12 caracteres, ficando abaixo do recomendado para segurança robusta. Além disso, 25% das mil senhas mais comuns utilizam apenas números, e 38,6% contêm sequências como “123”, o que reduz drasticamente o tempo necessário para uma quebra automatizada.
Cinco práticas essenciais para proteger suas contas
O ambiente corporativo merece atenção especial quando o assunto é segurança de credenciais. Fernando Corrêa alerta que muitas violações começam justamente pela falta de políticas claras de gestão de senhas nas empresas. “Ainda vemos colaboradores usando senhas fracas ou anotando credenciais em post-its colados no monitor. Pior: é comum encontrar a mesma senha sendo compartilhada entre vários funcionários para acessar sistemas críticos”, destaca.
Além disso, Fernando reforça que ambientes corporativos devem implementar políticas obrigatórias de complexidade mínima, rotação periódica de credenciais e uso de gerenciadores corporativos de senhas. “A conscientização da equipe é fundamental. Um único colaborador com senha fraca pode ser a porta de entrada para comprometer toda a rede da empresa”, completa Corrêa.
Diante do avanço dos ataques, o especialista reforça que a segurança digital deve combinar múltiplas camadas de proteção e ser incorporada à rotina dos usuários. Entre as principais recomendações estão:
- Ative a autenticação em dois fatores (2FA): essa camada extra de proteção está disponível na maioria dos serviços digitais e deve ser habilitada sempre que possível. A 2FA funciona exigindo duas formas de comprovação de identidade: algo que você sabe (a senha) e algo que você possui (o celular ou token).
Como configurar: acesse as configurações de segurança do serviço que deseja proteger — redes sociais (Instagram, Facebook, X), e-mail (Gmail, Outlook), marketplaces (Mercado Livre, Amazon), aplicativos financeiros e contas corporativas. Procure por opções como “Autenticação em duas etapas”, “Verificação em dois fatores” ou “2FA” e siga as instruções para ativar.Esqueça a verificação por SMS. Golpes de SIM swap e interceptação de mensagens tornaram esse método vulnerável. Aplicativos autenticadores funcionam offline e não dependem da operadora de telefonia.
- Senhas únicas e complexas: nunca reutilize a mesma senha em diferentes serviços. Evite sequências numéricas, datas de aniversário ou nomes de familiares. Utilize gerenciadores de senhas confiáveis para armazenar credenciais complexas.
A principal barreira para o uso de gerenciadores de senhas no Brasil é o simples desconhecimento de que eles existem como uma categoria de solução. A maioria dos brasileiros já utiliza essas tecnologias de forma ‘acidental’ através do preenchimento automático do Google Chrome, das chaves do Mac OS ou do Windows Hello, sem entender que aquilo é um gerenciador. Como essas ferramentas nativas resolvem o problema de forma invisível, o usuário não se sente motivado a buscar uma solução de mercado, ignorando que ferramentas dedicadas oferecem muito mais controle e segurança.
— Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes, professor de MBA na Fundação Getulio Vargas (FGV) e palestrante internacional
- Troca regular de senhas: estabeleça um calendário a cada 3 meses para apps bancários e de pagamento; a cada 6 meses para e-mail principal e contas profissionais. Configure lembretes no celular para não esquecer.
- Ferramentas de monitoramento: serviços como o Have I Been Pwned permitem verificar se e-mails ou senhas foram expostos em vazamentos da dark web. Em meados de 2025, pesquisadores identificaram uma coleção de mais de 16 bilhões de credenciais de login. Sempre que houver notícia de vazamento em algum serviço que você usa, troque imediatamente a senha, mesmo que não esteja no prazo programado.
- Auditoria de segurança: reserve um momento a cada três meses para revisar todas as suas contas digitais e identificar vulnerabilidades. O primeiro passo é acessar a seção de segurança em cada serviço, Gmail, Facebook, Instagram, Netflix, Spotify e outros, e verificar a lista de dispositivos com acesso ativo. Remova imediatamente aparelhos não reconhecidos, celulares antigos ou computadores que você não usa mais. Em seguida, analise o histórico de acessos e fique atento a entradas de localizações estranhas ou horários incomuns; muitos serviços mostram o endereço IP e localização aproximada de cada login, facilitando a identificação de atividades suspeitas. Outro ponto fundamental é atualizar as informações de recuperação: verifique se o e-mail alternativo e número de telefone cadastrados ainda estão ativos e sob seu controle, pois muitas invasões acontecem quando o invasor altera esses dados e a vítima perde completamente o acesso à conta. Aproveite também para revogar permissões desnecessárias, removendo autorizações de aplicativos e serviços de terceiros que você não utiliza mais, esses acessos antigos podem representar brechas de segurança. Por fim, habilite alertas de segurança para ser avisado sempre que houver acesso à sua conta de um novo dispositivo ou localização diferente.
Segurança digital: um hábito constante
O Dia Mundial de Trocar Sua Senha funciona como um lembrete simbólico, mas especialistas reforçam que a proteção digital precisa ser contínua. Configurar lembretes periódicos para troca de senhas é uma medida simples que pode evitar prejuízos financeiros e danos à reputação digital. Quando combinada à autenticação em dois fatores, a senha forte cria uma barreira significativa, mesmo em casos de vazamento.
Em um cenário de aumento constante de vazamentos de dados, ataques de phishing e uso de inteligência artificial para fraudes cada vez mais sofisticadas, senhas fracas ou reutilizadas continuam sendo uma das principais portas de entrada para crimes cibernéticos. No Dia Mundial de Trocar Sua Senha, o recado é claro: segurança digital começa no básico e exige corresponsabilidade. O que já é exigido das organizações precisa ser incorporado também às escolhas individuais, porque proteger a identidade digital deve fazer parte da nossa rotina.
— Marileusa Cortez, Data Governance Manager da Keyrus
Em 10 anos, as senhas tradicionais serão vistas como o ‘disquete’ da segurança: uma relíquia obsoleta e ineficiente. Estamos migrando rapidamente para a autenticação baseada em contexto e biometria, onde o foco deixa de ser ‘o que você sabe’ (a senha) e passa a ser ‘quem você é’ (biometria) e ‘como você se comporta’. O avanço das Passkeys e da Inteligência Artificial permitirá que a segurança seja invisível e onipresente.
— Kenneth Corrêa
Com 315 bilhões de tentativas de ataques registradas apenas no primeiro semestre de 2025, transformar a segurança digital em hábito cotidiano é uma necessidade urgente.






