A Bíblia exerce uma influência notável na cultura ocidental, transcendendo o âmbito religioso e servindo como alicerce simbólico e narrativo para diversas manifestações artísticas, literárias e cinematográficas. Essa influência é o tema central do livro A Bíblia é mãe da cultura e literatura ocidental (?), de Antônio Marcos Fonseca de Farias.
Pinturas icônicas, como A Criação de Adão, de Michelangelo, contribuíram para moldar a estética renascentista. Paralelamente, romances profundos, a exemplo de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, abordam temas universais como culpa, redenção e livre-arbítrio. Filmes inovadores, como Matrix e Blade Runner, exploram conceitos de messianismo, queda, salvação e a essência da humanidade, inspirados no imaginário bíblico, mesmo que ambientados em cenários futuristas ou filosóficos.
A Bíblia como matriz simbólica
Para aprofundar essa discussão, Antônio Marcos Fonseca de Farias, mestre em Ciências da Religião, oferece uma análise detalhada desse fenômeno, abordando a Bíblia como matriz simbólica da cultura ocidental, a presença de arquétipos bíblicos em narrativas modernas e a permanência desses referenciais no imaginário contemporâneo.
Em meio a debates sobre religião, cultura e produção simbólica, uma questão antiga ressurge no campo intelectual: qual a extensão da influência da Bíblia na maneira como o Ocidente pensa, escreve e interpreta o mundo? Essa é a provocação central da obra de Farias, que utiliza a ficção como ferramenta narrativa para questionar conceitos acadêmicos e ampliar o acesso a uma discussão tradicionalmente restrita ao ambiente universitário.
Uma trama que desafia o tempo
A trama acompanha um protagonista anônimo, identificado apenas pelo pronome “ele”, cuja experiência se desenvolve a partir de um deslocamento temporal inesperado. Em um estado de consciência ambíguo, o personagem transita entre passado e futuro, mesclando memória, projeção e imaginação. Esse fluxo narrativo serve como ponto de partida para uma imersão em reflexões sobre linguagem, tradição e herança cultural.
O ponto crucial da história ocorre quando, em sonho, o protagonista retorna à juventude e é convidado a apresentar uma dissertação em uma universidade de prestígio. A tese propõe uma análise da ‘literariedade’ do texto bíblico, utilizando o Evangelho de Lucas para validar a Bíblia como genitora da cultura ocidental.
Um embate acadêmico
Diante de uma banca examinadora sarcástica e intimidadora, o personagem se vê obrigado a defender sua trajetória intelectual e suas ideias. O embate acadêmico, permeado de humor e ironia, transforma-se em um palco simbólico onde o conhecimento é confrontado, questionado e ressignificado.
Qualquer tentativa de suplantá-la e erradicá-la jamais vingará, no que se refere ao inegável e esplêndido legado da Bíblia. Pode-se dizer então que os reflexos, as ressonâncias e as influências da Bíblia nos mais diversos campos artísticos são visíveis e tangíveis. Com isto estamos tentando enfatizar que a Bíblia pode ser entendida e interpretada majoritariamente não apenas como um livro, mas sim como genitora, professora e influenciadora de toda uma cultura.
— Antônio Marcos Fonseca de Farias, A Bíblia é mãe da cultura e literatura ocidental (?), p. 54
Ao longo dessa apresentação fictícia, o romance articula referências teóricas, conceitos da crítica literária e elementos do discurso acadêmico, sem renunciar a uma linguagem acessível. A narrativa assume um tom metalinguístico, trazendo o próprio ato de argumentar como parte da história, revelando as tensões entre autoridade intelectual, tradição e inovação.
Além disso, o autor descreve sua obra como uma junção entre teoria e ficção, com humor e rigor acadêmico, buscando alcançar públicos diversos sem comprometer a complexidade do debate.
Enquanto outros materiais se limitam ao rigor dissertacional, este livro propõe uma junção entre teoria e ficção, com certo grau de humor e uma pitada de rigor catedrático.
— Antônio Marcos Fonseca de Farias, autor do livro
Ao transformar um tema complexo em narrativa literária, Farias amplia o campo de reflexão sobre o impacto dos textos fundadores na construção da cultura ocidental. Mais do que apresentar respostas definitivas, a obra convida o leitor a ocupar o lugar da dúvida, onde pensamento crítico, imaginação e literatura se encontram.






