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Famílias haitianas seguem separadas no Brasil, mesmo com novas regras

Famílias haitianas seguem separadas no Brasil, mesmo com novas regras

Mesmo com regras facilitadas, famílias haitianas continuam separadas no Brasil. Uma decisão judicial de fevereiro de 2025, que manteve a exigência de visto para haitianos com vínculos familiares, ainda impacta o cenário migratório, mesmo com a nova Portaria Interministerial MJSP/MRE nº 55/2025.

O juízo da 9ª Vara Federal de Florianópolis rejeitou a ação do Ministério Público Federal (MPF) que pedia a dispensa do visto. A União argumentou que não há omissão administrativa, citando a regulamentação vigente e a digitalização dos pedidos. Juridicamente, o Brasil não é obrigado a instituir vistos humanitários. Contudo, ao optar por criá-los, o Estado gera uma expectativa legítima de acesso.

Nova portaria e entraves

A Portaria Interministerial MJSP/MRE nº 55, publicada em agosto de 2025, atualizou as regras para concessão de visto temporário e autorização de residência por acolhida humanitária. A norma eliminou taxas e permitiu o envio online das solicitações, sem necessidade de ir ao consulado brasileiro no Haiti. Embora a modernização normativa represente um avanço, ajustado pela Portaria nº 59, de dezembro de 2025, ela não foi acompanhada do fortalecimento das condições práticas para a população interessada formalizar seus pedidos.

Dificuldades práticas e instabilidade

Na prática, persistem obstáculos significativos, especialmente diante da instabilidade política e social haitiana e da limitada capacidade operacional do sistema consular. O acesso ao consulado brasileiro em Porto Príncipe tem se tornado mais restrito, não apenas por entraves burocráticos, mas também por fatores estruturais, questões de segurança e pela fragilidade institucional do país.

O principal entrave deixou de ser normativo e passou a ser estrutural e interpretativo. O reagrupamento familiar está previsto na legislação migratória brasileira e em tratados internacionais, mas enfrenta obstáculos recorrentes na aplicação administrativa cotidiana.

— Clarissa Barroso, advogada e sócia-fundadora do BFA Direito Migratório

Judicialização e tensões

Esse cenário tem contribuído para o aumento da judicialização da política migratória e evidencia uma tensão entre a existência formal das normas e seus efeitos concretos sobre famílias que já vivem, trabalham e contribuem economicamente no Brasil. Mesmo quando atendem aos requisitos legais, muitos núcleos familiares permanecem separados por longos períodos, à espera de procedimentos que não acompanham o volume da demanda. Na prática, a política de acolhida humanitária existe, mas seu acesso permanece limitado por entraves operacionais que reduzem sua efetividade.

Quando o reagrupamento é tratado como exceção administrativa, e não como um direito previsto em lei, o sistema produz atrasos, insegurança jurídica e amplia a vulnerabilidade das famílias migrantes. A norma existe, mas sua efetividade depende de uma interpretação compatível com a dignidade humana e com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.

— Clarissa Barroso, advogada e sócia-fundadora do BFA Direito Migratório

Além do impacto social direto, especialistas apontam efeitos colaterais do descompasso entre previsão legal e execução prática, como o surgimento de intermediários irregulares, promessas juridicamente frágeis e soluções informais que expõem famílias a novos riscos.

A experiência brasileira com vistos humanitários para haitianos, iniciada após o terremoto de 2010, volta assim ao centro da discussão não apenas como marco normativo, mas como política pública em execução, com impactos concretos sobre o acesso real aos direitos previstos.

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