Como a conveniência digital impacta nossa capacidade de aprender? Um artigo recente de Conrado Schlochauer levanta uma reflexão relevante sobre como o excesso de conforto e facilidades no dia a dia pode estar reduzindo nossa capacidade de aprendizado profundo.
O impacto da tecnologia na passividade humana
No texto, Schlochauer discute como a tecnologia transformou nossos hábitos, mas também nos tornou mais passivos. Ele apresenta estudos que mostram os efeitos do uso digital solitário na satisfação com a vida e como a presença do celular diminui a criatividade e o pensamento crítico.
A partir dessas evidências, o artigo analisa como estamos terceirizando a curiosidade para algoritmos e nos afastando da fricção e do improviso que sustentam o aprendizado humano.
Ao terceirizar a curiosidade para algoritmos, estamos abrindo mão do potencial de aprendizado que nasce de momentos de dúvida, de deslocamento e de presença intencional. Aprender exige presença, fricção e, muitas vezes, improviso.
— Conrado Schlochauer, pesquisador e consultor
A conveniência no ambiente corporativo
O autor também faz uma leitura crítica do ambiente corporativo, onde a busca por eficiência e indicadores reduz o espaço para erro e experimentação. Schlochauer aponta sinais de que a conveniência está limitando nosso repertório, desde a preferência por conteúdos que confirmam o que já sabemos até a tendência de evitar situações em que somos iniciantes.
Aprendizado incidental e exposição ao inesperado
Além disso, ele reforça o papel do aprendizado incidental e da exposição ao inesperado como caminhos essenciais para ampliar o pensamento, a criatividade e a inovação.
Um estudo com mais de 9.500 pessoas na Dinamarca mostrou que o uso digital passivo e solitário, como rolar o feed sem conversar ou assistir a vídeos sozinho, está fortemente associado à insatisfação com a vida, mais do que qualquer outro tipo de atividade com telas.
Sinais de que a conveniência limita o aprendizado
Há sinais claros de que a conveniência está limitando a nossa aprendizagem. Um deles aparece quando nossas escolhas de aprendizado começam a ser guiadas quase exclusivamente por algoritmos e redes sociais; quando, em vez de buscarmos o novo por curiosidade própria, apenas consumimos o que nos é oferecido.
Outro indício surge quando evitamos situações em que não nos sentimos competentes ou no controle.
Preferir o conhecido ao incerto pode até parecer estratégico, mas muitas vezes é apenas um mecanismo de defesa. Ao deixar de frequentar espaços em que somos iniciantes, seja em uma nova linguagem, tecnologia ou contexto social, abrimos mão do tipo de aprendizado que realmente amplia repertório, aquele que exige desconforto, humildade e abertura.
— Conrado Schlochauer, pesquisador e consultor
A importância do atrito e do contraste
Ademais, é importante variar os conteúdos consumidos. Afinal, algoritmos sabem o que você gosta e servem isso repetidamente. Mas aprender exige atrito, contraste e desvio. Se tudo o que você lê, ouve e assiste já confirma o que pensa, o que resta para transformar? Quando a bolha é confortável demais, ela vira cela.
Por fim, o aprendizado mais profundo acontece justamente apesar dos planos, numa conversa inesperada, numa dúvida surgida no trânsito ou num erro cometido ao improvisar. Aprender de forma incidental não é perder o controle. É estar disponível para aquilo que o cotidiano quer ensinar, mas que muitas vezes não estamos ouvindo.






