A reforma tributária, com a introdução do IVA Dual, exige que os escritórios de contabilidade revisem seus processos internos para evitar inconsistências. A transição para o novo sistema, que começa em 2026, amplia os riscos operacionais e demanda uma reorganização completa.
Impacto da transição para o IVA Dual
Dados da OCDE mostram que os tributos do tipo IVA representam uma parcela significativa da arrecadação total nos países que adotam esse modelo. No Brasil, a migração para o IVA Dual, que substituirá ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI, terá início prático em 2026, no chamado ano-teste. Essa transição exige que os escritórios de contabilidade revisem seus fluxos internos, cadastros e rotinas operacionais para evitar inconsistências durante o período em que as regras antigas e novas coexistirão.
Hygor Lima, especialista em gestão de processos para o setor contábil e fundador da consultoria Potencialize Resultados, alerta que a operação tributária funcionará em duplicidade por vários anos. “Quem deixar a adaptação para 2026 vai trabalhar no improviso, e o improviso custa caro”, afirma.
Riscos ampliados na transição tributária
A coexistência dos dois sistemas até 2033 aumentará o volume de informações e o risco de divergências em apurações, bases fiscais e obrigações acessórias. Um levantamento da Potencialize Resultados indica que o retrabalho já consome até 25% da produtividade dos escritórios, e 73% dos erros poderiam ser evitados com fluxos definidos, uso de checklists e revisão sistemática.
Segundo Hygor, esse cenário tende a se agravar durante a reforma. “Se hoje os erros já comprometem prazos e geram notificações, imagine com duas legislações convivendo. O volume de cruzamentos automáticos deve aumentar, e equipes despreparadas terão mais chance de falhar”, observa o especialista.
Além disso, levantamentos internos da consultoria mostram que a adoção de processos estruturados reduz em até 41% o número de notificações fiscais, especialmente em períodos de fiscalização intensificada.
Agosto de 2025: um marco para a preparação
Hygor Lima aponta agosto de 2025 como marco para que os escritórios ajustem times e processos antes do ano-teste. A revisão envolve mapear etapas críticas da entrega fiscal, atualizar sistemas, revisar contratos e definir responsáveis por cada fase de conferência.
“O contador terá de operar dois modelos tributários ao mesmo tempo. Isso exige processos claros, autonomia técnica da equipe e checkpoints distribuídos. Sem isso, o escritório entra em modo reativo, o que amplifica riscos de autuações”, explica.
Ações prioritárias para contadores
Entre as ações prioritárias destacadas pelo especialista, estão:
- Mapeamento dos fluxos críticos ligados a apurações, créditos fiscais e obrigações acessórias.
- Revisão contratual e de honorários, considerando a complexidade adicional do período de transição.
- Implementação de checklists e revisões cruzadas para reduzir falhas em etapas sensíveis.
- Treinamento paralelo das equipes, preparando-as para operar o sistema antigo e o novo.
- Criação de indicadores contínuos, garantindo previsibilidade durante o processo de adaptação.
Hygor destaca que escritórios com processos padronizados já registram até 38% de redução de retrabalho em períodos críticos, evidenciando que a maturidade operacional influenciará diretamente a qualidade da adaptação.
Tendências até o ano-teste
O Ministério da Fazenda prevê para 2026 a aplicação das alíquotas simbólicas de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, com destaque em nota fiscal, caráter pedagógico e função de testar sistemas, cadastros e rotinas durante a transição. Mesmo com efeitos reduzidos, eventuais erros poderão gerar impactos posteriores em créditos, compensações e declarações.
Países que implementaram modelos de IVA registraram intensificação de cruzamentos automatizados e maior dependência de sistemas consistentes, tendência que deve se repetir no Brasil. “A reforma inaugura um novo padrão técnico. Os escritórios precisam estar prontos para orientar clientes desde o primeiro mês do ano-teste”, afirma Hygor.
PXP26: Abertura para a comunicação
O especialista explica que 2025 também marca a abertura das discussões para o PXP26, um encontro que reunirá gestores, líderes e especialistas do setor contábil para debater produtividade, riscos operacionais e adequação ao novo modelo fiscal. O evento funcionará como plataforma de alinhamento para o período de transição.
“O PXP26 se torna essencial porque a reforma exige atualização coletiva. Será um ambiente para discutir métodos, compartilhar práticas e acelerar a preparação dos escritórios”, completa Hygor.
Em resumo, a fase de adaptação envolverá atualização de sistemas, revisão de bases financeiras, simulações e reorganização operacional. O prazo é curto e as exigências técnicas tendem a aumentar nos próximos meses.
“A contabilidade precisa abandonar a lógica reativa. No cenário da reforma, quem não planejar operará no limite, e o limite cobra caro”, finaliza Hygor Lima.






