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Crise climática expõe gargalo nas cidades brasileiras

Crise climática expõe gargalo nas cidades brasileiras

A crise climática expõe um gargalo crítico nas cidades brasileiras: a dificuldade de transformar planos e diagnósticos em ações concretas. Apesar do avanço no planejamento, a execução ainda não alcança os territórios, especialmente aqueles com maior vulnerabilidade climática.

Descompasso entre planejamento e execução

Dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério do Meio Ambiente em parceria com a Fiocruz, revelam que 2.801 dos 5.570 municípios brasileiros estão classificados com alta ou muito alta vulnerabilidade climática. Paralelamente, o país registrou mais de 7.500 eventos extremos ligados a chuvas intensas entre 2020 e 2023, um aumento superior a 220% em relação aos anos 1990, segundo análises do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) realizadas por pesquisadores da Unifesp.

Esse cenário evidencia que o principal problema não é a falta de diagnóstico, mas a dificuldade de transformar conhecimento técnico em ação efetiva nos territórios. A persistência dessa lacuna agrava os riscos para as populações mais vulneráveis.

Quando o planejamento não se conecta à implementação, ele deixa de ser solução e passa a integrar o problema, produzindo consenso técnico sem impacto real sobre as populações mais vulneráveis.

— Mariana Pontes, diretora-presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)

A urgência de novos modelos de cooperação

Nesse contexto, surge a urgência de novos modelos de cooperação entre poder público, sociedade civil, universidades e comunidades locais. A meta é transformar diretrizes em ações com escala, continuidade e impacto real.

Além disso, a crise climática não é apenas um desafio ambiental, mas um teste de capacidade institucional das cidades. Sem uma execução eficaz, os riscos continuarão a recair sobre os mesmos territórios e populações.

O papel das organizações sociais

É nesse espaço entre o saber técnico e a ação concreta que as organizações sociais assumem um papel estratégico. Ao operarem de forma híbrida, articulando conhecimento técnico, financiamento público e presença contínua no território, essas organizações avançam onde as políticas públicas enfrentam limites operacionais.

Desigualdade e vulnerabilidade

A crise climática afeta de forma desigual o espaço urbano. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que mais de 16 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas, áreas geralmente marcadas por infraestrutura precária, maior exposição a riscos ambientais e menor acesso a serviços públicos.

O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima reconhece que populações de baixa renda, majoritariamente negras, concentram as maiores vulnerabilidades socioambientais. Desse modo, a crise climática atua como vetor de reprodução das desigualdades urbanas, tornando as cidades não apenas mais vulneráveis, mas também mais injustas.

Construindo cidades mais resilientes

A recorrência de desastres e a persistência dessas vulnerabilidades indicam que o desafio central das cidades brasileiras não é apenas ampliar o volume de diagnósticos, mas construir arranjos institucionais capazes de implementar soluções com escala, continuidade e impacto real. Enquanto o planejamento permanecer dissociado da execução, os riscos continuarão a se concentrar nos mesmos territórios e sobre as mesmas populações.

Portanto, o debate deve envolver os arranjos institucionais capazes de transformar diretrizes em ações concretas nos territórios. A cooperação entre políticas públicas, organizações da sociedade civil, universidades e iniciativas comunitárias é fundamental para construir cidades mais inclusivas e preparadas para os desafios contemporâneos.

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