Casos de extrema crueldade, como a morte do cachorro Orelha em Florianópolis, geram revolta. Mas, afinal, como compreender a mente do criminoso? Para a psicanalista Elizandra Souza, a sede de vingança é uma resposta justa ou nos aproxima da lógica do agressor?
A banalização do mal e o desejo de vingança
Episódios de violência extrema mobilizam sentimentos primitivos, como raiva e ódio. Essas reações, embora humanas, podem reproduzir a mesma desumanização presente no crime, explica Elizandra Souza. Em vez de apenas punir o ato, é preciso entender quem o executa.
A sanção só adquire sentido quando há reconhecimento da própria ação, pois sem esse assentimento, o castigo se reduz a um procedimento automático, incapaz de produzir responsabilização ética.
— Elizandra Souza, psicanalista e professora
O livro “As Sombras do Eu”
Em seu livro “As Sombras do Eu – Psicopatologias da Maldade”, publicado pela editora Quixá Books, Elizandra Souza articula Criminologia e Psicanálise para mostrar como a conduta transgressora é atravessada pelo inconsciente, pela história e pelas estruturas sociais, revelando conflitos psíquicos profundos e a forma como cada indivíduo se relaciona com a Lei.
Ao revisitar a evolução histórica da criminologia, a autora evidencia como a sociedade buscou explicar o mal por meio da punição, da biologia ou do contexto coletivo, frequentemente negligenciando a dimensão subjetiva de quem comete o delito.
Responsabilidade subjetiva e a função da justiça
Para a psicanalista, a sanção só tem sentido quando há reconhecimento da própria ação. Sem esse reconhecimento, o castigo se torna um procedimento automático, incapaz de gerar responsabilização ética.
Ao analisar estruturas clínicas como neurose, psicose e perversão, além da tipologia lacaniana dos crimes do Supereu, do Eu e do Isso, Elizandra Souza busca compreender desde atos marcados por culpa inconsciente até condutas impulsivas, nas quais não há mediação simbólica nem remorso. A psicopatia também é abordada como uma estrutura complexa, que desafia leituras reducionistas e respostas penais tradicionais.
A obra oferece reflexões práticas para o campo jurídico, clínico e social. “As Sombras do Eu” aponta que a maldade não é uma exceção restrita a poucos, mas uma possibilidade inerente à condição humana e que uma justiça que desconsidera a subjetividade enfraquece sua função simbólica.
O livro convida a repensar o crime, a justiça e a responsabilidade para além do julgamento imediato e da punição automática. Ao lançar luz sobre aspectos frequentemente silenciados da experiência humana, Elizandra Souza propõe uma reflexão crítica sobre certezas morais e reafirma a importância de reconhecer o sujeito como autor de seus atos.






