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Ditadura Militar: Ficção aborda pobreza e justiça negada

Ditadura Militar: Ficção aborda pobreza e justiça negada

Em “Entre Montanhas e Predições”, a ficção de Felipe de Caux transforma o desaparecimento forçado em uma ferida que atravessa gerações. A história aborda a ausência de Francisco, levado pelos militares, expondo a dor contínua das famílias que nunca tiveram respostas, vivendo entre a espera, o luto suspenso e o silenciamento imposto pela ditadura.

A falta de reparação e a dor da impunidade

A narrativa evidencia a falta de reparação efetiva: mesmo com o reconhecimento tardio dos crimes, a justiça não chegou aos pobres e invisibilizados. Assim, o romance revela como a impunidade prolonga o sofrimento, convertendo a memória dos desaparecidos políticos em um peso herdado, jamais reparado pelo Estado.

Ambientada no interior de Minas Gerais, a trama acompanha Madalena, marcada por um presságio desde o nascimento e pelas previsões de uma cartomante. É nesse contexto que Felipe de Caux expõe as diferenças entre as classes sociais, revelando desigualdades e violências estruturais que dialogam com o silenciamento histórico das camadas mais vulneráveis da sociedade.

A busca por justiça em meio ao sofrimento

A história de Madalena é reconstruída a partir dos relatos que divide com seu médico em um asilo. O leitor é então conduzido ao passado, quando as antigas profecias começaram a se cumprir: o marido sucumbiu ao alcoolismo; umas das crianças faleceu ainda bebê; uma filha foi destruída pelo ciúme e pelo machismo; um filho foi vítima de homofobia; e outro consumido pela melancolia.

Entre todas as dores e perdas, o desaparecimento do jovem promissor Francisco, levado pelos militares durante a ditadura, é a ferida que a assombrou por anos, acompanhando-a até o envelhecer. Tomada por esse vazio, Madalena transformou seu propósito em uma busca interminável pelo filho perdido e por algum traço de justiça – esta que raramente alcança as famílias pobres e invisibilizadas. Cada destino, embora atravessado pelo simbolismo do presságio, revela a dureza das estruturas sociais que sufocam quem vive sem voz.

Parecia que os esquecidos seriam finalmente lembrados, e por um tempo achou que sua espera chegaria ao fim; no entanto, apesar de reconhecerem os crimes, nada mudou, e ninguém foi punido. Os desaparecidos continuaram perdidos, ou para ser mais exato, enterrados.

— Trecho do livro “Entre montanhas e predições”

A literatura como ferramenta de denúncia

Ao transformar sofrimentos reais em matéria literária, Felipe de Caux constrói um romance que denuncia, emociona e resgata aquilo que a história oficial tantas vezes tentou apagar. Na personagem central, o leitor encontra não apenas uma mulher marcada por fatalidades, mas o espelho de uma população que aprendeu a enfrentar perdas, cultivar esperança e reinventar a própria resistência diante da tragédia.

Com forte carga imagética, poética e sensível, a obra entrelaça o cotidiano ao extraordinário para revelar a complexa realidade latino-americana. Os elementos mágicos da trama surgem como extensões naturais da vida, permitindo expor injustiças, opressões e crenças populares de um modo que a narrativa realista, sozinha, não alcançaria. Assim, a ficção se torna uma ferramenta potente de memória e verdade.

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