A inteligência artificial (IA) já faz parte do dia a dia nas escolas brasileiras. No entanto, a maioria das instituições ainda não sabe como lidar com essa nova realidade. Enquanto alunos recorrem ao ChatGPT para estudar e professores usam a IA para planejar atividades, faltam regras, treinamento e diretrizes claras sobre limites, ética e aplicação pedagógica.
Falta de preparo e o uso da IA
Nesse cenário de improviso, a discussão deixou de ser “se” a tecnologia deve entrar na educação e passou a ser “quem” está no controle dela. Pedro Siciliano, CEO da Teachy, provoca gestores e educadores a encararem um fato incômodo: ignorar a IA não é prudência, é perder a governança do aprendizado.
De acordo com Siciliano, 85% das escolas brasileiras não têm política de IA, mas 80% dos alunos já a utilizam diariamente. “Enquanto diretores debatem se devem criar diretrizes, seus alunos já estão usando ChatGPT para fazer trabalhos. Seus professores já estão planejando aulas com IA aos domingos à noite. A tecnologia não está batendo na porta da escola. Ela já entrou, se instalou e está redefinindo o que significa ensinar e aprender”, afirma.
Para ele, a ilusão é achar que a IA é opcional, mas a realidade é que ela já governa a escola. “A única diferença é quem está no comando”, completa.
O que acontece quando a IA não é controlada?
Um estudo realizado na Argentina ilustra o que acontece quando as escolas ignoram o óbvio e permitem o uso livre de IA sem regras claras. O resultado foi 0% de aprovação nas provas, com plágio generalizado e aprendizado nulo.
No entanto, quando o mesmo professor redesenhou a tarefa, exigindo histórico de chat, defesa oral e evidências do processo, a taxa de aprovação subiu para 66,7%, com aprendizado profundo comprovado. “A diferença não foi a tecnologia, foi governança”, explica Siciliano.
Professores e a IA no Brasil
Enquanto isso, no Brasil, professores relatam que 80% suspeitam de cola com IA e continuam aplicando as mesmas provas e pedindo os mesmos trabalhos, como se nada tivesse mudado. Mas algumas instituições já estão atentas a isso.
Harvard, Stanford e MIT já adotaram frameworks claros sobre quando a IA pode ser usada, como citar o uso, quais práticas configuram plágio e como declarar autoria. Em 2022, eram sete países com diretrizes nacionais de IA na educação. Em 2026, serão mais de 30.
Apesar de mais de 70% dos professores já usarem IA, apenas 15% receberam diretrizes claras da escola. E desses, menos de 15% foram treinados pela própria rede. Isso significa que apenas 2% das escolas do Brasil estão treinando seus professores formalmente para usar IA. Em outras palavras, a política de IA da escola está sendo terceirizada para o YouTube e para grupos de WhatsApp.
“Professores estão aprendendo sozinhos, improvisando e testando limites sem rede de proteção. Alunos estão descobrindo por conta própria o que podem ou não fazer. E a escola está ausente da conversa mais importante da década. Em 2025, o uso de IA foi experimental, mas a ausência de diretrizes em 2026 é negligência”, alerta Pedro Siciliano.
Benefícios do uso estruturado da IA
Nas instituições com uso pedagógico estruturado de IA, 86% dos alunos melhoram as notas e 96% dos professores relatam satisfação. Para isso, as escolas precisam definir quais ferramentas são recomendadas e por quê, quando o uso é permitido, incentivado ou inadequado, como declarar autoria e uso de IA, o que configura plágio ou cola e como a escola apoia os professores nesse processo.
“Isso é aliar pedagogia com tecnologia e liderar as mudanças com responsabilidade. Caso contrário, a IA vai definir a pedagogia das escolas. Enquanto essas conversas são adiadas, alunos estão dando um jeito e professores estão se virando com ou sem apoio. Porém, os avanços da IA não vão esperar ninguém ficar pronto”, finaliza Siciliano.
Pedro Siciliano é cofundador e CEO da Teachy.






